16 de Julho de 2011

 

 

 

  

 

 

 

 

 

Salvate Amice!

 

 

     Há uns meses largos entrei numa loja de discos, uma discoteca, e pedi um que andava para comprar fazia que tempos. O que me restringia era o facto de ter outra versão do mesmo, uma oratória. Tenho, nalguns casos, várias versões de óperas (com moderação), mas no caso de oratórias, tal facto acontece muito poucas vezes. No entanto, eu sabia que desta vez valia mesmo a pena. Valia pela voz, pela voz do soprano, a da Kathleen Battle! Tive a sorte de vê-la num recital aqui em Portugal no CCB e confirmei as minhas impressões: uma voz de soprano lírico, uma voz redonda, generosa, dourada, quente. Quando, em palco, depois de umas paragens (estudadas?), mas que caíram bem por causa do seu sorriso, que a faz muito mais nova, começou a cantar e a voz passou por cima da minha cabeça e voou pela sala como se, ao sair da sua boca, se tivesse tornado num ser independente, que já não lhe pertencia, quase entrei em transe. Na loja, dizia, pedi o disco: "Bom dia, queria saber se têm a versão da Semele, que pronunciei à inglesa uma vez que as oratórias de Händel são cantadas, como sabem, em inglês, Sé-me-li". Depois de algum desentendimento, lá chegámos a um acordo fonético de compreensão e consegui a última cópia que tinham, que agarrei como se de um filho pródigo se tratasse. Foi das melhores compras que fiz. Já tinha ouvido muitas vezes esta versão em casa de amigos. Agora oiço mais.   

 

    Kathleen Batte, americana, teve uma carreira fulgurante na Metropolitan Opera House, conseguindo brilhar em "papéis secundários" de óperas do século XVIII, com a ajuda de James Levine. Mas também "estrelou"! Cantou em Boston, noutras cidades e visitou outros países. Cantou para o Papa João Paulo II e, mais recentemente, para o esclarecido Benedicto XVI.  

 

    Nos anos 90 correu o boato (correspondente à verdade?) que ela se tornou difícil, caprichosa, que chegava atrasada aos ensaios, que apostava com as outras estrelas quem era o ultimo a chegar aos ensaios e coisas deste género, que era desagradável para com os cantores secundários, gossip deste teor...

 

    Vivendo nos tempos que vivemos, de $$$ e de pseudo-poupanças, governados por pessoas que subalternizam o bom gosto porque não o têm, o General Manager da Metropolitan Opera House, Joseph Volpe, que começara na Met como carpinteiro, despediu-a. Levine calou-se. E nós, aqueles que gostamos de Música, ficámos talvez sem a melhor soprano lírico do fim do século XX! Nos anos 50 do século passado aturava-se tudo à Callas; agora não, porque a arte é comércio, uma vez que os directores financeiros e os políticos são merceeiros. Uma nota positiva para isto não ser tão negro, talvez porque estoutra cantora devia ter um feitio "comme il faut" e, coitada, era feia; ficámos, felizmente, até ao fim da sua carreira e da sua vida, com a melhor, na nossa opinião, soprano lírico ligeiro do século XX, a Dame Joan Sutherland.

 

    De ti, Kathleen, resta-me o consolo, grande, da memória daquele serão no CCB (nunca te vi na MET), a companhia de óperas gravadas, desta tua fantástica Semele, dirigida pelo John Nelson, que oiço em casa e… no meu iPod!

 

  

 

    Recomendo, Amici! 

 

 

   Valete

 

    Raulus Antonius

 

publicado por Raúl Mesquita às 14:42 link do post
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Olá RauuuuuuuuuL:já tive a oportunidade de te comunicar com prazer a tua "nova ocupação. Quanto ao comentário sobre a utilização do primeiro nome
no tratamento profissional ou socialmente com um ser com o qual nada sabemos......bom já o disse.
Abração e parabéns.
FERNANDO PINTO PEREIRA a 16 de Julho de 2011 às 17:00
Obrigado e intervém (comenta) sempre.

Abraço Grande.

RAULUS.
Após uma série de récitas dela no MET, os técnicos e demais pessoal mandaram fazer umas t-shirts onde se lia "I survived Kathleen Battle". Alguma razão teriam...
Há também a famosa história de, da limusina, ela ter ligador para o agente para que ele telefonasse ao motorista a dizer que fosse mais devagar...
Quanto à voz e à "Semele", não posso estar mais de acordo: quem não as ouviu não sabe o que perde. Há anos que tenho essa gravação, que considero a todos os títulos paradigmática.
Abraço, abraço, abraço.
Pergolesi a 17 de Julho de 2011 às 15:52
Meu Caro:

Em primeiro lugar, deixa-me agradecer-te pela tua colaboração!

Já tinha ouvido essa do "I survived (the) Battle". Pois não tinham mais do que fazê-lo. Não sobrevivemos nós a crueldades de dívidas que nós NÃO contraímos? Por que é esse ranhosos não se podiam vergar à verdadeira arte? Foi o Volpe que, de carpinteiro ce cenários (não era cenógrafo), subiu a carpinteiro das finanças da Met. Os americanos gabam-se de ser o país das oportunidades. Dessas, "nãoobrigado!" Se tivesse ascendido a Director Artístico, a Cenógrafo, isso sim, era de se lhe tirar o chapéu, esforço merecido, agora a Director Financeiro, qualquer ganancioso... - vês-se o resultado: o $ a esmagar a Arte. Pergunto ainda: teria o Joseph Volpe tido algum gozo pessoal em despedi-la? I wonder!?

Abraço, Abraço, Abraço.
ERRATA: esses ranhosos; carpinteiro de cenários.
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